20090425

Para o outro lado



Mozart - Requiem (Mix)


A missa fúnebre Requiem foi a sua última composição e talvez uma das suas melhores e mais famosas obras, não apenas pela música em si, mas também pelos debates em torno de até qual parte da obra foi preparada por Mozart antes de sua morte, e quanto foi posteriormente finalizada por seu amigo e discípulo Franz Xaver Süßmayr. O que é certo é que se diz que a preparou especialmente para a sua morte, que se encontrava perto.

Como não é esta a mensagem de morte que quero passar neste post, deixo-vos o remix da música. Assim sim, mais adequado.


António Lobo Antunes escreve o prefácio do livro de Tolstoi, A morte de Ivan Ilitch, questionando se se trata de uma obra sobre a morte ou de uma obra que nega a morte. Considera, acima de tudo, que é um retrato implacável da nossa condição. Eu concordo.
Uma coisa é certa, na minha visão: importa o que fazemos da nossa vida, de que forma a vivemos e a fazemos valer. O negar a morte é uma analogia do descobrir-se a si próprio, conhecer-se, e saber que seguimos a nossa vida pelo caminho certo e ultrapassando os obstáculos com que nos deparamos com força e esperança. E que estimámos os que estão perto de nós. E que fizemos mais, pelos outros e por nós mesmos. Se este é o caminho, a morte não importa. Cumpramos apenas o nosso dever.

Nesse preciso momento Ivan Ilitch afundou-se, viu a luz e revelou-se-lhe que a sua vida não tinha sido o que devia ser, mas que isso ainda podia ser remediado. Perguntou a si mesmo: o que é então "isso" e ficou quieto, à escuta. E então sentiu que alguém lhe beijava a mão. Abriu os olhos e olhou para o filho. Sentiu pena dele. A mulher aproximou-se. Ele olhou-a. Ela olhava para ele de boca aberta e lágrimas no nariz e na face, olhava-o com uma expressão de desespero. Sentiu pena dela (...) Queria ainda dizer "perdão" mas disse "permissão" e, já incapaz de se corrigir, agitou a mão sabendo que seria entendido por aquele que o devia entender. E de súbito tornou-se-lhe claro que aquilo que o afligia e não o largava lhe saía de repente tudo de uma vez (...) "Que bom e que simples", pensou. "E a dor?... Que é dela? Então, dor, onde estás tu?... E a morte? Onde está ela?". Procurava o seu habitual medo, o anterior medo da morte e não o encontrava. Onde está ela? Qual morte? Não tinha medo nenhum, porque também não havia morte (...) Inspirou o ar, parou a meio de um suspiro, esticou-se e morreu".
Lev Tolstoi

3 comentários:

  1. Para começar... Isto é que é ouvir Mozart com outros ouvidos. Excelente escolha, para não variar.
    Morremos todos um dia e não devemos ter medo da morte, mas sim aproveitar apenas as sensações que estar vivo possibilita.
    De resto... Nada a dizer porque o post está excelente e fala por si!

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  2. A morte é apenas uma transformação - "Nada se ganha, nada se perde, tudo se transforma".
    Na boa da verdade continuamos a ter medo da morte... ou do sofrimento que leva à morte... ou... do "e depois?"...
    Na realidade apenas mudamos de estado vibratório. A alma desprende-se e torna-se livre, despe-se do corpo pesado que lhe servia de prisão. Contudo continuamos a ser os mesmos na nossa individualidade. Não melhoramos nem pioramos relativamente ao que fomos enquanto vivos.
    Se cumprimos o nosso dever, então a nossa consciência e o nosso estado vibratório será o da felicidade verdadeira.

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  3. O que dá valor à nossa vida é o que dela fazemos, são as nossas atitudes que reflectem a pessoa que nós somos. Acredito que se vivermos sempre em função deste pressuposto e encararmos a presente vida como um desafio e oportunidade de evolução, teremos uma particular percepção da morte. O corpo morre, a alma persiste. Quantos de nós lamentamos não ter dito uma palavra, não ter tido um momento com aquela pessoa que vive o seu momento final naquele instante. Cabe-nos através da nossa postura alterar e pintar o quadro à nossa maneira. A morte é, para mim, o fechar de um ciclo e o início de outro.

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